
Nayana
© Robert
Tinha 12 anos quando os meus pais me disseram que viria para Portugal estudar. Naquela época morava na cidade de Lourenço Marques, actual Maputo. Aterrei na cidade de Lisboa no dia 26 de Janeiro de 1976, não pela primeira vez pois já antes no verão de 1972 viera passar férias a Faro com a minha avó. Desta vez eu não tinha consciência de que tudo seria diferente, havia rupturas que teriam que ser vividas, a climática, a territorial, a afectiva, a relacional e outras.... um choque cultural e ambiental? Talvez. Só muito mais tarde descobri o porquê de ter encaminhado os meus estudos para as relações internacionais e interculturais (antropologia visual), todas as nossas opções de vida têm uma razão de ser...
Poderia ir buscar T. Hall para falar no modo como a dinâmica das culturas é silenciosa, mas deixo aqui umas passagens de um texto de Fernando N. Dias que nos fala das barreiras à comunicação, transcrevo apenas um deles, aquele com o qual mais me tenho defrontado, apesar de só agora perceber que sempre assim foi....se quiserem poderão ler o texto completo, é esclarecedor de como as culturas funcionam subtilmente através de vários artefactos pelos quais vão construindo os indivíduos, sem que disso estes tenham consciência, uma espécie de teia de significados como nos refere Geertz, que nos dá uma estrutura através da qual agimos e nos relacionamos uns com os outros...
"As interacções sociais, ao nível das relações face-a-face, estão sujeitas à influência de um conjunto de variáveis de carácter manifesto ou latente, que lhes determinam, ou pelo menos influenciam, a condução dos processos comunicacionais. Os padrões de interacção resultantes das relações entre os indivíduos são consequência, por um lado, da aleatoriedade humana e, por outro, da previsibilidade que a vida em sociedade possibilita....
O contacto visual é também ele um factor pessoal que, apesar de tudo, pode obstruir a interacção e provocar momentos de embaraço ou, até, de pânico. O direccionamento, o tempo, o contexto, a oportunidade, a intensidade, o status de quem olha ou de quem é olhado impõem um quadro interpretativo, que cada cultura se encarrega de transmitir aos seus membros, pelo processo de socialização. Os indivíduos sabem, por intuição, os parâmetros que condicionam o contacto visual; aprenderam e interiorizaram, no decorrer do tempo, as regras e os mecanismos de censura que o processo do olhar implica em sociedade...."
Barreiras à Comunicação Humana, Fernando Nogueira Dias (ver o texto completo aqui)
Apesar de tudo, nunca é demais realçar as palavras de Edward T. Hall (1973) quando nos diz que “[...] uma das formas mais eficazes de se aprender sobre si mesmo é levando a sério outras culturas.” Talvez seja esta a razão pela qual eu não me canso de revelar estes rostos "Outros" que me tocam e encantam...
Gisela Ramos Rosa, Dezembro de 2009